quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

SP tem menos de um pediatra por 1.000 crianças e adolescentes

Como não consegue marcar consulta com o pediatra, a família recorre ao pronto-socorro e a criança acaba passando por exames que poderiam ser evitados
A Sociedade Brasileira de Pediatria de São Paulo (SPSP) divulgou um alerta, nesta quinta-feira (16), sobre a escassez de profissionais no Estado. O motivo, segundo a entidade, é a baixa remuneração, que tem diminuído o interesse dos médicos formados na especialidade. E quem perde, claro, são os pacientes.
A entidade informa que, enquanto a proporção geral de médicos no Estado é de 2,7 profissionais por 1.000 habitantes – considerada adequada, há apenas 0,7 pediatra para cada 1.000 habitantes de zero e 20 anos, faixa de atuação do especialista.
Segundo Mário Roberto Hirschheimer, Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), em 2012 havia apenas 956 candidatos no exame para obtenção de título de especialista, contra 1.660 inscritos em 1999. Se, há 15 anos, 15% a 20% dos formandos procuravam a pediatria como especialidade, hoje esse número é inferior a 8%, de acordo com o médico.
"Das especialidades médicas, a pediatria é uma das mais mal-remuneradas", diz Hirschheimer. Isso porque esse tipo de profissional só recebe por consultas – não há procedimentos cirúrgicos ou diagnósticos envolvidos no trabalho, como no caso de outros especialistas.
O presidente da entidade diz que muitos médicos perderam o interesse em abrir consultório, já que a despesa para mantê-lo chega a R$ 55 por paciente e a maioria das operadoras de planos de saúde paga ao redor de R$ 66. A saída, diz ele, é fazer plantões – como há poucos profissionais no mercado, os hospitais pagam melhor os pediatras plantonistas.
Se muitos médicos resolvem o problema da má remuneração atendendo em menos de dez minutos, com o pediatra isso é quase impossível. Uma consulta de puericultura (que envolve acompanhamento de peso, altura, medidas da cabeça e desenvolvimento neuropsicomotor) leva no mínimo 30 minutos.
Segundo uma medida da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) que passa a valer a partir deste mês, as operadoras terão que pagar o dobro para consultas de puericultura em relação a outros atendimentos feitos pelo pediatra. "Mas ainda é cedo para saber se isso está sendo colocado em prática", comenta o presidente da SPSP.
Outro aspecto ressaltado é que, enquanto na classe médica como um todo existe uma predominância do sexo masculino sobre o feminino, na pediatria essa proporção é de 75% para o sexo feminino e 25% para o masculino. E a mulher pediatra, quando decide ter seus filhos, reduz sua carga horária e disponibilidade para plantões, fator que diminui ainda mais a disponibilidade de profissionais.
Pronto-socorro lotado
Uma das principais consequências da escassez de profissionais é o número cada vez maior de famílias que recorrem aos pronto-socorros, por não conseguirem marcar consulta em tempo hábil. E aí, como já passaram por um médico na fase de crise, desistem de ir ao pediatra para fazer o acompanhamento.
"Uma boa puericultura vai determinar uma sociedade melhor no futuro", enfatiza  Hirschheimer, referindo-se a critérios como saúde e longevidade. É nesse tipo de consulta, explica ele, que é possível detectar problemas precocemente, orientar a família sobre como prevenir enfermidades e evitar crises, no caso de doenças crônicas.
Como no pronto-socorro o a fila é grande e o médico é pressionado para ser ágil, é comum que o profissional peça mais exames para se certificar de que o problema será resolvido.
A consequência é que as crianças são mais submetidas a exames de sangue e de raio-X, entre outros, o que a longo prazo é até perigoso - a exposição acumulada à radiação ao longo da vida aumenta o risco de câncer, e a retirada frequente de sangue de bebês pode até causar anemia, de acordo com o médico. Sem contar o sofrimento que os procedimentos muitas vezes causam.
Tudo isso, diz o médico, poderia ser evitado com uma boa consulta e o conhecimento do histórico da criança.